É
irreversível a situação de fechamento, na primeira quinzena de janeiro, da Casa
de Saúde Santa Teresa, que há mais de 45 anos presta serviços na área
psiquiátrica nesta cidade do Sul do Ceará. O hospital é referência de
tratamento para o Cariri e Estados vizinhos. Após cerca de 15 anos se
arrastando por uma grave crise de funcionamento, os sócios viram que não havia
mais condições de prestar os serviços.
Estão
internados na unidade ainda cerca de 60 pacientes, que receberão alta médica de
forma gradativa até o fechamento completo do hospital. As homologações dos
últimos 70 funcionários do estabelecimento, que se encontram de aviso prévio,
já foram realizadas.
Nas
últimas décadas, a cidade do Crato, que era um dos polos de atendimento à saúde
no Interior do Estado, passou por um processo de precarização e fechamento de
três hospitais.
O
Hospital São Francisco, que atualmente é administrado por camilianos, conta com
reformas para se manter em funcionamento, além das unidades de saúde Doutor
Raimundo Bezerra de Farias e São Miguel.
Segundo
uma das diretoras da Casa de Saúde Santa Teresa, Luciana Abath, o fechamento
acontece até o dia 15 de janeiro, e tudo que poderia ser feito para que os
serviços continuassem já ocorreu.
As
diárias do Sistema Único de Saúde (SUS) já não estavam sendo corrigidas há
vários anos e, com isso, houve uma defasagem muito grande para manter a casa.
Luciana lamenta pelas famílias dos internos, que estão em situação lamentável.
"É muito difícil. As pessoas estão apavoradas e entristecidas ao
extremo", afirmou a diretora.
Conforme
Luciana, há casos extremos em que não haverá como realizar o atendimento por
meios do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) e nem nos postos de saúde,
onde não há internamentos. "Pelo visto, vamos voltar ao estado mais
primitivo, em que as pessoas vão construir cárceres privados dentro de casa, no
fundo dos quintais, para manter as pessoas doentes, em estado de surto, por não
terem para onde ir", ressalta.
Segundo a
diretora, o orçamento da casa estava voltado para o pagamento da folha e
impostos. "O restante, a gente tinha que se virar", afirma. Conforme
suas informações, as diárias repassadas pelo SUS já estavam há cerca de dez
anos sem a correção, no valor de R$ 42, por paciente. "Não adianta nadar
contra a maré", lamenta.
Para
Luciana, a situação se tornou mais grave há cinco anos, com as adequações às
novas políticas de atendimento. O processo de mudanças em hospitais
psiquiátricos fez com que equipes multidisciplinares fossem contratadas para
manter o tratamento mais humanizado, proporcionando maior ressocialização dos
doentes. Dos pacientes que ainda restam nas dependências, estão mais de 30
homens, 16 deles na emergência, e 27 mulheres.
Despedida
Os
funcionários aproveitaram o último ano em que se encontraram reunidos e, na
semana passada, realizaram a confraternização natalina da casa. Um momento de
despedida. Todos de aviso prévio se despediram do único hospital psiquiátrico
do Cariri. Mesmo com vários apelos aos governos estadual e federal,
parlamentares da região, município e até mesmo a própria sociedade, não houve
condições de manter a casa.
"Estamos
muito tristes com esse momento. É mais desolador ainda para as famílias dos
pacientes, que precisam do tratamento e muitas vezes não têm como controlar uma
pessoa doente em casa", afirma o auxiliar de limpeza, José Ailton da
Silva, há 16 anos trabalhando no local.
A Casa de
Saúde recebeu pacientes de Estados como Pernambuco, Piauí e Paraíba. Até maio
de 2015, se encontrava com cerca de 200 pessoas internadas, fora os
atendimentos e acompanhamentos que aconteciam, durante a semana. Agora no fim,
são apenas 63. O espaço ficava lotado, diante da carência de tratamentos
psiquiátricos na região. Desde outubro que se intensificou a saída dos
pacientes.
Outra
diretora da casa de saúde, Ana Isabel Barreto Machado Dias, afirma que desde a
reforma psiquiátrica o hospital vem buscando se adequar à Lei Antimanicomial,
inserindo a humanização no tratamento. Ela também atribui o fechamento dos
equipamentos à visão governamental em que se acredita que o problema da
psiquiatria seja resolvido com a redução de leitos e os encaminhamentos para os
Caps e clínicas. "Infelizmente, com mais de 15 anos que foram criados os
Caps, a demanda continua a mesma ou até mesmo maior", avalia.
As
despesas diárias de um paciente equivalem a cinco refeições, assistência médica
psiquiátrica, clínica de Psicologia, assistência social, terapia ocupacional,
enfermagem e medicação. Mesmo recorrendo ao Estado já uma vez, Ana afirma que
não teve esperança em relação a um auxílio para os serviços. Em 2014, chegou a
conseguir isenção de impostos municipais, no valor de quase R$ 8 mil, o que
ajudou nas despesas. Para chegar a um alinhamento com as despesas, calcula que
a diária recebida por pessoa deveria chegar a pelo menos R$ 150,00.
Com todas
as dificuldades, a única alternativa, conforme Ana Isabel, foi encerrar as
atividades, da forma menos traumática, minimizando a quantidade de pacientes
aos poucos.
O local
também funciona como hospital durante o dia. Há pacientes que foram
encaminhados pela Justiça, mesmo não sendo um manicômio judiciário. Familiares
fizeram até abaixoassinado para vetar o fechamento.
Famílias
A
situação das famílias que necessitam do serviço é desoladora. Para a dona de
casa Francisca Elias do Nascimento, é extremamente preocupante o fechamento do
hospital. Ela tem um filho internado no local. Ela mora em Juazeiro do Norte e
diz que não sabe como vai fazer. "Aqui é o único local que o acolhe e há
necessidade de um tratamento", afirma dona de casa.
O
professor Renato Hélio teve que se deslocar do Estado do Pernambuco para
encaminhar o irmão com a mãe até o hospital psiquiátrico. "Vivo em outro lugar
trabalhando e fico apreensivo com essa situação de ela ter que conviver com uma
pessoa que a gente sabe que é agressiva e só tem esse lugar para a gente
recorrer", afirma.
Já a dona
de casa Cícera Maria tem necessitado dos serviços da casa de saúde como única
alternativa para onde pode levar o seu tio, do Município de Aurora. Após um
surto, ela o levou para a Casa Santa Teresa, onde o homem encontra-se internado
há mais de 40 dias.
"Na
minha casa são três idosas, incluindo a minha avó de 94 anos. Não há a menor
possibilidade de elas cuidarem dele. Nas crises ele é agressivo e quer matar o
povo", diz.
Para
Cícera, se não houver a possibilidade de internar o parente no Crato, a única
alternativa terá de ser encaminhá-lo para Fortaleza, longe da família.
"Gostaria que dessem um jeito de não fechar, porque as pessoas de Aurora
são todas encaminhadas para cá. É uma pena", lamenta. (E.S.)
Mais
informações
Casa de
Saúde Santa Teresa
Travessa
Doutor Rolim, S/N
Vila Alta
- Crato
Telefones:
(88) 3523-2511 / (88) 3523-2469
ELIZÂNGELA
SANTOS
REPÓRTER

